24.12.09
Ceia
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16.12.09
A gente agora já nao tinha medo
Mas foi, no sozinho do vago, que compreendeu, que acordou para uma história sem névoas. Bastava começar, começar pelo começo, seguir até o final e então parar; para o viajante que não sabe para onde quer ir, qualquer mapa serve. E pôs-se a caminhar...
De fato, era um dos homens bons; mesmo que não o enxergasse, ele carregava o fogo. Todas as estradas, todos os mapas, todos os rumos levavam-no a ela. E sua própria consciência o inquiria: “há quanto tempo não te arde o coração?”.
Olhando nos olhos, disseram-se, assim eles dois, coisas grandes em palavras pequenas, ti a mim, me a ti, e tanto. Porque o que há é homem humano, e as pessoas não estão assim terminadas. E se, das habilidades que o mundo sabe, a que faz melhor é dar voltas, a vida não era mais do que essa sucessão de faltas. E falta, ela lhe fazia demais.
Deram-se as mãos. Viver é muito perigoso, mas ao lado dela era saborosa aventura. Sussurrando ao ouvido dela, disse-lhe: “não solta da minha mão”. Fosse uma estrada ou o mundo inteiro, ao lado dela bastava-lhe sonhar. E disse: “como é simples! A gente agora já não tinha medo”.
Imagem de autoria desconhecida.
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7.12.09
O homem com um sonho
O garoto, a cada pouco que andava, abaixava para pegar as quinquilharias da rua: uma concha aqui, um graveto ali, uma pedrinha verde brilhosa reluzindo o sol, uma folha avermelhada de ressequida. Andava seus passos meninos e conferia se o avô o estava cuidando.
Ele o acompanhava; mãos nos bolsos, ideias incertas. Tão só olhava o garoto caminhando, sempre à frente, por aquele caminho que se fazia eterno. Apenas caminhavam, sem saber o rumo, o destino, o propósito, o porquê. Mas lhe sobreveio a súbita certeza de que, quando parasse de caminhar, o menino seguiria adiante: de algum modo caminharia, um pelo outro, para o infinito.
No entanto, foi o guri quem parou e esperou o avô se aproximar. Uma das mãos segurava as coisas que colheu. A outra entrelaçou os dedos do avô. Encarando-o, disse:
“Vô, compra um sorvete pra mim? Compra? De chocolate”.
Despertou sentindo o solavanco do ônibus. E sorriu envergonhado pelo modo como acordara e porque achou peculiar sonhar-se velho. À sua frente, um menininho loiro, com a boca lambuzada pelo sorvete de chocolate que segurava, lhe sorria. Então levantou-se, acariciou o guri e lhe disse:
“Prazer, meu nome é Julian”.
Imagem: Kaelen, de Nicholev Vintage Textures
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30.11.09
A hora atrasada
Perguntou-se, a Noite, como inocente criança, aonde ia aquele rapaz que nunca ardera em amor. E se compadeceu: de tristeza apagou as estrelas e minguou a lua. E ali, no breu sufocante, confabulou.
O rapaz sentiu uma forte rajada de vento, virou-se e viu ao longe alguém caminhando. E, acendendo em carreira, as estrelas voltaram a brilhar. Ela aproximou-se dele, tomou suas mãos e aconchegou-se em seu peito. Ele tocou seu rosto e beijou-a.
A Noite, sentada em seu trono, perdeu-se a observá-los – eternos apaixonados. Perdeu-se tão demasiado nas suas horas que não notou no horizonte o Dia vindo reclamar seu reinado. Quando o viu empunhando seu estandarte dourado, espalhando em raios o brilho do alvorecer, correu até ele e intercedeu para que aquelas horas continuassem paradas.
A manhã seguinte, complacente, amanheceu uma hora atrasada.
Imagem de autoria desconhecida.
Postado por lucas gandin às 6:50 PM 3 comentários
25.11.09
O dia do pensamento mágico
Ele tinha de tomar uma decisão. Uma difícil decisão. Tão difícil, que este adjetivo ainda carece de peso para expressar quão decisiva era a decisão. Estava por demais indeciso. Como sempre fora. Existia nele uma ambivalência desastrosa para sua autocompreensão, um joguete dos infinitos pares binários antagônicos que o deixava com dúvidas e imerso numa confusão.
E sem perceber, sobre sua cabeça havia surgido um balão, daqueles balões de histórias em quadrinhos. Um grande balão de pensamento e dentro dele, o sinal da dúvida: a interrogação.
Sua primeira decisão foi, na verdade, uma fuga. Resolveu partir sem rumo, imaginando que a solução aparecesse de mágica. Porém, não pôde fugir às escuras. De longe as pessoas avistavam, por entre os prédios e árvores, o enorme balão e, curiosas, seguiram-no.
Primeiro seguiram seus amigos, depois os aparentados e, lá pelos últimos, um e outro desconhecido. Embora não soubessem o problema ou o cerne da dúvida, ajuntaram-se a ele. Tentou se esconder numa mata, entrou nas galerias subterrâneas, enfiou-se em becos e porões sem conseguir despistá-los. Consentiu, por fim, que o seguissem.
Caminhou até chegar a um canyon. E ali sentou-se. Aqueles pessoas todas sentaram-se também e se colocaram a observar o balão. Que ainda era de pensamento. Que ainda continha a interrogação. Que denotava hesitação. Pois ele hesitava e já tinha o rosto abatido, os olhos afundados na face, as olheiras pesadas, o olhar enuviado, o corpo rijo de tenso.
De repente ouviu: “decide-te, porque estamos aqui para apoiar-te qualquer seja tua decisão”. Ao virar-se para averiguar de quem partia a voz, viu surgir sobre a cabeça de alguém um balão. E apareceu outro, e mais outro um mais aqui e ali. Sobre todos apareceu um balão de pensamento. E dentro deles se desenharam exclamações.
Olhou todos aqueles balões e sorriu, porque nesse exato momento realizou qual decisão deveria tomar.
Imagem de autoria desconhecida.
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17.11.09
Da princesa que se salvou do vilão
E essa princesa foi prometida em casamento ao herdeiro do reino do oeste, que distava demasiado longínquo. Mas era el-rey do oeste de tão alta honra e estirpe que honraria se aprazaria ao rei que sua filhasse o esposasse.
A princesa foi colocada num navio, que cruzou viagem pelos mares, rumando ao reino do oeste. Porém era de tão má índole o diabo, que invejando a felicidade da princesa e seu pai, no meio do percurso, tornou o tempo em tormentas e o mar agitado e a princesa e seus séquito temeram a morte. O diabo desviou o trajeto e levou-a para outras terras, muito mais distantes e perigosas.
Quando o mau tempo dissipou-se, o navio da princesa estava atracado numa terra que ela supôs ser uma ilha desconhecida. Chamou por um dos seus, mas não a atenderam. Haviam todos mortos. A princesa desembarcou e encontrou uma trilha; tomou o caminho e depois de perder a conta de quantas léguas caminhou encontrou uma taberna.
Após alguns dias em viagem e caminhando, a princesa tinha fome e por isso adentrou a taberna e pediu ao vilão que ali atendia por uma refeição. Enquanto ceava, reparou quão belo era o vilão, mas penalizou-se em pensamento porque estava prometida a el-rey do oeste e não cabia a uma dama comprometida olhar a outros homens. Quando terminou, fez menção de retirar-se, mas o vilão cobrou-lhe a refeição. Foi que realizou de que não trouxera consigo providências. Sem ter como pagar-lhe, o vilão sugeriu que ela o servisse de algum modo. Recusou; não cabia a damas da sua honra servir a vilania.
O vilão, porém, douto de que a princesa havia admirado sua beleza, usou de sagacidade:
“Mui bela senhora, se não me pagares haverei de ter minha honra atingida. E só poderei compensar a mim se também tiver a tua honra”, disse-lhe o vilão.
“Meu bom vilão, o que me pedes é deveras ultrajante. Jamais poderei pagar um prato de comida com minha honra que já é prometida a meu senhor el-rey do oeste”, replicou a princesa.
Ouvindo isso, o vilão avançou para cima da princesa e encurralando-a sem escapes, tomou por bolinar seu corpo e despiu-se na intenção de desonrar a donzela. Ela, sem ter a quem clamar, invocou o nome de Nosso Senhor e persignou-se. Nesta hora, o vilão urgiu em agonia e de seu corpo eriçaram pelos grossos, e seus olhos ficaram vermelhos e seus dentes pontiagudos e seus pés forcaram-se como os de um bode e seu corpo exalava enxofre e saiu disparado, porque diante do nome de Nosso Senhor nada pode o diabo.
Postado por lucas gandin às 5:23 PM 2 comentários
12.11.09
Gostinho bom
Estavam há três horas sentados à mesa do bar, embora tivessem trocado apenas poucas palavras. Se para um as palavras vinham à ponta da língua, para o outro o mundo havia recém se tornado denso e obscuro. Já sem saber como consolar o amigo, perguntou-lhe:
“Não vai nem ao menos tomar o whisky?”
“Não”, respondeu-lhe. “Não quero tirar o gostinho bom do último beijo que ela me deu”.
Imagem de autoria desconhecida.
Postado por lucas gandin às 7:51 AM 1 comentários





