26.9.10

Ele


Ele tem os olhos verdes e não é muito alto. Tem a pele clara, raro o sol escurecer. O cabelo é arrumadamente bagunçado, penteado pra lá e pra cá, contido com gel. As mãos trazem o toque certo quando entrelaçam meus dedos. E o toque... ah, que nele me perco. O rosto é bonito, colorido pela barba delineada, de fios negros e ruivos, que aprumam o queixo. A voz é firme e calma, quase sempre metrificada – soa poesia. O olhar é curioso, mas um tiquinho retraído, está sempre observando com a segurança de quem anda por terras conhecidas. A companhia é sempre paz prolongada no tempo, que se faz parado para nós, e sempre fogo, daquele que ardem sem se ver. Ele veste-se simples, anda normal, trabalha e estuda e viaja e se diverte e defende suas convicções e até já queimou um miojo. Mas um único detalhe, uma simples e mínima característica o faz único e especial, complexo e diferente:


a sua boca se encaixa perfeitamente na minha.



Imagem de autoria desconhecida.

29.8.10

Construção


Era véspera de véspera de Natal, mas a obra não podia parar. Alheia à cidade em ritmo de compras, ele assentava os tijolos como de habitual, embora as ideias se perdessem na ceia com a família amanhã. Talvez ainda conseguisse comprar o presente dos filhos na rodoviária.
Assim que terminou o almoço foi a um telefone público e ligou para casa:
“Chego aí amanhã cedinho”, avisou.
Empolgou-se; o coração, feliz. Colocou o telefone no gancho. E de ímpeto, atravessou a rua, sem ver o ônibus biarticulado que vinha.
A ironia é que ele se chamava Natalício.

Imagem de autoria desconhecida.

20.8.10

Alucinação


Não te vi chegar; ainda sonolento me dei conta de tua presença em minha cama – você me abraçava e me dava conforto. Lembro-me de que deitei sozinho, procurando preencher o espaço que viria a ser teu esparramando-me na cama. Jamais sonhei que num átimo você, sorrateiro, me faria companhia.
Ainda me pergunto como conseguiu se espremer no pouco espaço que havia; de tanto dormir sozinho fiz do vazio um canto suficiente para mim. De tanto esperar por alguém, deixei de ficar acordado esperando a tua chegada.
Mas você veio, do longe desconhecido e eu não te recebi. Deliciosamente, você se achegou em meus braços, invadindo o lugar reservado que roubei de você. Teu calor aquiesceu meu coração e tive a certeza de que você veio para não partir.
Às vezes penso que estou atordoado, dopado com algum elixir exótico, que tua presença é uma sublime miragem, que o teu toque é algum efeito misterioso. Prefiro assim; prefiro tua presença inventada à tua ausência verídica. E espero que você tenha trazido mais deste elixir, porque deste efeito alucinógeno quero não acordar.


Imagem de autoria desconhecida.

13.8.10

A rosa e o jardim


Virou-se, olhou para trás, mas nada viu. Continuou o caminho. Sentiu uma brisa arrepiar a nuca e logo em seguida o mesmo sussurro: “a rosa!”. Voltou a olhar para trás, sem nada ver. Julian Gasmar quedou a cabeça naquele tique costumeiro e voltou a se concentrar nos pensamentos vagos. Não delongou e teve a impressão de ouvir o mesmo sussurro.
Olhou ao redor certo de que havia apenas ele por aquelas bandas; ninguém mais de esgueira numa sombra qualquer. Estava ouvindo coisas, pensou. Mas não... logo a sua frente apareceu um velho, de óculos escuros e trajando o mesmo avental que o botânico usava.
“As rosas!”, disse ele. E apontou para sua direita.
Julian Gasmar acompanhou os dedos com o olhar e vi aparecer diante dos seus olhos um jardim imenso, coberto de rosas de todas as cores. Quando intencionou inquirir o velho, ele já havia desaparecido.
Caminhou em direção aquele jardim. De início não mensurou o quanto longe era e nem por que estava indo naquela direção. Apenas foi. Mas já caminhava por um tempo demais passado quando percebeu que o jardim parecia ficar cada vez mais longe. Começou a correr, na tentativa de vencer o tempo e avançar espaço; se pudesse correria mais que a velocidade da luz. E correu, tão chispado, tão veloz que quando parou já estava no meio do jardim, rodeado por aquelas rosas todas.
Fitou o seu redor, mirando quantas rosas pudesse e sorriu, imaginando que elas eram todas suas. Então ouviu o sussurro de novo: “as rosas!”. Procurou o velho e não o viu. E de repente as rosas todas começaram a desaparecer. De repente tudo que foi dito se sublimou, tudo que ele viu se desmanchou e tudo o que ouviu foi tão só a voz da brisa.
De teimoso, tentou assegurar ao menos uma rosa, mas esta petrificou e se desmanchou em cinzas. E o jardim voltou a ser a cidade que era antes.

Imagem de: Johana Svoboda.

29.7.10

Pão repartido


“Cedo e já bebendo, mulher?”
“Não enche o saco”, respondeu embolando-se nas palavras.
“Me dá um pouco.”
Passa a garrafa.
“Ó, trouxe um pão”, diz ele.
Ela arranca um pedaço.
“O teu, cadê?”
“Só consegui um”.
Ela divide o pão ao meio. Oferece-lhe. Ele aceita.
“Vai dar pra enganar a fome.”
“Talvez a gente consegue mais depois.”
“A noite foi fria, né.”
“Foi...”
“Dorme abraçado comigo esta noite? Para espantar o frio.”
Ele assentiu.
“Mas é bom a gente arrumar uns papelões a mais.”



Imagem de Maik Blume.

20.7.10

Todos


Na minha vida, as pessoas vão e vem, passam e deixam marcas. Meus amigos são os que ficaram, não só deixam marcas, como as reescrevem todos os dias. E sou feliz, porque tenho os amigos certos para cada momento da vida.
Para lembrar minha infância, as loucuras do tempo de criança, é o Diego, as Anas (Lazier e Godinho), a Day, o Eder. Para lembrar a adolescência e aquele sentimento de irmandade, é o Bruno (Angeli), o Will, o Ítalo. Para lembrar os anos de faculdade, o Eduardo, Luíza, Fabiane, Juliana, Alexandro. Para lembrar os outros anos de faculdade, as conversas sobre sexo e as baladas, a Dri, a Fer, a Liza e a Val.
Para lembrar as noites literárias, as piadas internas e os grandes conselhos sensatos, meu amigo Carlos. Para os dias de desabafo e de riso solto, Rafael. A amiga poetisa: Fran. Para a amizade de futuro certo, de expressão sincera e dedicada, Gui e Mel, a dupla dinâmica. Para a confidência dos sucessos e infortúnios, Ana (Cichon) e Leandro, vulgo Shrimp. Clarissa, a eterna duplinha.
Aline, Cássia, Juliana (Blume), Luiza e Bruno (Calzavara) são as companhias certas, a risada divertida, as loucuras inventadas, a certeza da amizade no futuro.
Os amigos distantes: Vinicios, Osmar, Romulo, Caloan, Junior. O amigo literário: Gustavo. Os que chegaram agora, mas já ficaram: Cayo e Humberto e os mestrandos.
Os que a cada dia pensam em mim.
Os que me fazem feliz.
Os que calidamente edificam minha vida.
Os que me elogiam e criticam, me apoiam e pedem apoio, os que choram e riem comigo.
Os que constroem meu mundo.
Os que estão, para sempre, no altar-mor do meu coração.
Todos vocês.



Imagem de: http://troisiemeoeil.org/

8.7.10

Meia rosa


Enquanto ela dormia, ele tomou uma rosa em mãos. Escolheu a de flor maior e mais bonita. Com o canivete, talhou-a ao meio, como que dividindo as pétalas em duas partes. Dilacerou uma das metades cutucando com a ponta afiada; as pétalas mais fracas se desprenderam, as maiores ficaram rasgadas.
Depositou a flor na mesa e caminhou até ela. Conferiu se os dois nós na corda estavam bem apertados. Acendeu um cigarro e esperou que ela acordasse. Nesse tempo, abriu o revolver e girou a roleta algumas vezes; tirou e recolocou as balas com meticulosa paciência. Pegou a rosa e ficou admirando a flor.
Quase três horas depois, ela despertou ainda atordoada da droga que ele lhe dera. Tentou falar alguma coisa, mas balbuciou inaudível. Quando fixou a imagem, a tanto custo, viu-o, brincando de engatilhar o revólver.
Tentou se levantar e correr e descobriu que estava amarrada à cadeira.
Gritou. Alto.
Ele empunhou o revolver, encostou-o em sua testa, engatilhou-o e lhe acariciou seu rosto com a rosa.
Ela gritou. Agitou a cabeça.
“Por que?...”
Ele passou a rosa no sobre seu lábio e disse:
“Tu, amor, me mataste primeiro”.


Imagem de Jesse Chan Norris.