28.3.10

Ela


A cadeira em frente, vazia. No copo, a marca recente do batom. O saldo da noite: vinte e dois reais mais o serviço do garçom.



Imagem de Gonçalo Motta.


21.3.10


Embora houvesse a luz dos postes, a rua possuía uma aura escura e densa que a tornava pesada. Percorrer seus poucos quilômetro foi como entrar num mundo que se revela ao breu. A cada passo, sentia-se puxado para aquele mundo, sentia sua poeira lhe povoar a pele e sufocar a respiração.
Olhava ao redor e não conseguia enxergar um semelhante, eram todos desgraçados, cada qual em sua própria desgraça, uma desventura estéril, demente. Pareciam todos espíritos malogrados a uma pseudoexistência.
Às vezes cruzava com alguém, num passo apertado. Insinuava quase ilusório uma mesma rua servir de trajeto e de casa, porém eram tantos os papelões espalhados sob as marquises e os cobertores rotos contra a frieza do albergue. Os que não dormiam, cambaleavam bêbados, até que as pernas não mais sustentassem o fraco esqueleto e então eles se arrastavam.
Mas foi no olhar que os viu desgraçados; irmãos seus fadados a uma peça da vida. Olhar mareado, distante, forçando um foco que em vão tentavam buscar. Sentiu-se claustrofóbico, não podia despertá-los do sono ébrio que dormiam. Mais à frente, um orelhão se iluminou duma luz bem amarela que rompeu o côncavo da cabine e varou a rua como uma certeza.
Não atreveu olhar, buscou o canto do olho e desvendou pelo cheiro: um trago e o devaneio abriu as portas pela qual o cara entrou. Ali, às escondidas, às encolhas, era uma porta minúscula, mas a cada dia mais gente por ela entrava. Mas ninguém viu, estavam todos ensimesmados em suas venturas que aquela decrépita rua há muito perdera sua beleza: dos casais apaixonados, restou os cafajestes; do cavalheiro, o dentinho de ouro; da moça apaixonada, a prostituta. Do amor, a desgraça comum.
E naquela rua, cada qual com sua sina: sua desgraça era uma rosa, já murcha e de caule ressequido, cujas pétalas desprendiam e rolavam além, carregadas pelo vento.


Imagem de autoria desconhecida.

11.3.10

Louco




Você me ama?
Amo.
Mesmo?
Mesmo.
Mesmo... mesmo?
Aham...
Aham ou mesmo?
Sim.
Sim o quê: aham ou mesmo?
Sim eu te amo.
De verdade?
...
Fala, de verdade?
Eu te amo, meu bem.
De verdade?
Sim, de verdade.
Ama como?
... amando...
Você vai ficar comigo pra sempre?
Eu estou com você.
Mas você vai ficar pra sempre?
Sente aqui, meu bem: meu coração acelerado, minhas mãos geladas; é assim sempre que estamos juntos. Nem são eu seria louco de ficar sem você.


Imagem de autoria desconhecida.

6.3.10

Prêmios Rubens Mazza e Chuchu de Ouro


Interrompo a programação do blog para anunciar os vencedores dos prêmios Rubens Mazza e Chuchu de Ouro, do 10º Putz:


PRÊMIO RUBENS MAZZA

Melhor Filme Trash: O macaco assassino da floresta
Melhor Filme: Droga de amigo
Melhor Direção: Droga de amigo
Melhor Ator: Guilherme Sobota, em Droga de amigo
Melhor Atriz: (sem premiadas)
Melhor Ator Coadjuvante: Stamato, em Droga de amigo
Melhor Atriz Coadjuvante: Helen Anacleto, em O macaco assassino da floresta
Melhor Ator Inútil: Menina tocando violão em Whiskey in the Jar
Melhor Cena: Helen Anacleto morrendo em O macaco assassino da floresta
Melhor Trilha Sonora: Até mais, e obrigado pelo vinho!
Melhor Roteiro: Droga de amigo
Melhor Fotografia: (sem premiados)
Melhor Edição: Déjà Vu
Melhor cena "Ai, mi fodi!": Bernardo e Barney, em Droga de amigo
Prêmio Originalidade: Cara rolando escadas em O macaco assassino da floresta



PRÊMIO ESPECIAL MULETA DE OURO "O melhor momento é agora!" (em homenagem a Levi Crissi)

Baiano - filme cult é o escambau, em Droga de amigo


PRÊMIO CHUCHU DE OURO

Pior Filme
: Murphy versus Ronaldo
Pior Direção: A loira do banheiro
Pior Ator: Protagonista de Murphy versus Ronaldo
Pior Atriz: Kelly Prudêncio, em O macaco assassino da floresta
Pior Clichê: Personagens calçando chinelo e se olhando no espelho.
Pior Edição de Som: A loira do banheiro
Pior Roteiro: Murphy versus Ronaldo.


Um comentário: que puta desorganização. Sério, calouros 2010, façam melhor ano que vem, por favor, se for pra ser nesse amadorismo merda então nem façam.

24.2.10

Tão frio


Pensava a casa estar hermeticamente fechada, de modo que o fogo à lareira queimasse sem precisar recear que ele de repente apagasse. Mesmo quando a chama estivesse encolhida, diminuta à brasa, ele sabia que o fogo ardia e o lume irradiava pela casa.
Era aquele calor presente e aquela luz certa que conferiam a segurança necessária, como se com eles reconhecesse seu espaço de mundo e sonho, em detrimento de uma realidade sem névoas, da simplicidade que nos vara a alma.
Mas basta uma mínima fresta, uma porta entreaberta, a brisa deentrando a janela, a gaveta mal fechada, para o lume se apagar. Qualquer descuido é um átimo para o passado ressurgir, para a escuridão dominar e o calor se desmanchar.
De repente tudo fica tão frio...

Imagem de autoria desconhecida.

20.2.10

A volta da Geni


Geni partiu escorraçada; mal teve tempo de juntar a roupa do corpo e alguns pertences numa trouxa. Saiu, deixando o pouco de dignidade ao lado da calcinha no chão do quarto. Trespassou o bosque da cidade com uma horda em seu encalço: lideradas pelo bispo, as mulheres vestiram-se de preto e, em procissão e de cruzes em punho, clamaram pelo decoro. O prefeito, este dizia que a moralidade voltaria a reinar na cidade; algumas crianças ajuntavam pedras do chão.
Pobre Geni, salvo-os com sua honra, que agora lhe condenara ao exílio. Antes de se embrenhar na mata, fitou a cidade, mirou o céu; ao longe, diminuto, ia o zepelim. Mas de deu conta de que trazia em sou trouxa o milhão que lhe dera o banqueiro.
De vingança, planejou: numa noite qualquer plantou na praça da cidade, de fronte à igreja, uma estátua sua, de bronze, sentada num zepelim de mesmo material. A peça era grande o bastante para ser vista de qualquer beco estreito da cidade.
E comprou um zepelim, com o qual flutuava sobre a cidade todos os dias em ameaça: se destruíssem a estátua ou removessem-na da frente da igreja ou trocassem o templo de lugar, seria ela que abriria os dois mil orifícios e, com os dois mil canhões, faria a cidade em geleia.


Imagem de autoria desconhecida.

11.2.10

Fica comigo


Vem, fica comigo; fica esta noite e mais a outra, até as noites todas se sucederem eternas. Sabe, eu te procuro em cada pessoa que vejo nas ruas, mas em nenhuma te encontro escondida. Sei, contudo, que ainda te encontrarei oculta nalguma sombra diluída.
Vem, fica ao meu lado, empresta-me o colo e cuida de meu sono. Se quiseres, acaricia meus cabelos, enrola em teus dedos um cachinho. Às vezes sinto tuas mãos percorrer meu corpo, dedilhando nossa música em canção. Mas quando procuro teus olhos, teu olhar foge no horizonte tão longe, tão longe que mal consigo vê-lo.
Vem, dorme comigo; amanhã quero te acordar em carícias e te envolver em meus braços. Já acordei outras noites sentindo teu perfume: lembrança em minha cama da vez que nunca estiveste lá. Mas tu virás e então acordarei em tua presença.
Vem, fica comigo nem que seja por um tempo curto, dure o quanto durar, será o nosso tempo; parado para nós: eterno. Vem, que te espero, vem que te quero. Vem, me dá a mão.


Imagem de Krasimir Ganchev.