30.6.10

Balões


A mãe lhe garantira, todas as crianças que fosse ao parque ganhariam um balão inflável. O garoto já não continha a ansiedade. Zanzava pela casa apressando a mãe, que terminava de se arrumar, deixando-a irrequieta.
“Será que vai ter balão vermelho?”, perguntou.
“Talvez...”, respondeu a mãe sem muito prestar atenção à pergunta.
No trajeto, o garoto encheu um saco plástico com a boca e atou uma fita de modo a ele ficar igual a um balão. Com umas das mãos, fazia-o flutuar. Porém seus olhos refletiam um balão muito maior, mais bonito e que ganharia o ar por si só.
Estava feliz, não continha em si essa alegria simples posto que em pouco tempo ela alçaria voo com o balão.
Ao chegar ao parque, viu várias crianças, cada qual com seu balão que coloriam de todas as cores. Inclusive de vermelho. Mas não enxergava onde os balões estavam sendo distribuídos. Varreu com os olhos todo o parque e nenhum sinal da máquina de inflar balões. Ela tinha de ter estar em algum lugar; o tempo todo mais e mais crianças chegavam e ganhavam seus balões. Correu todos os cantos, conferiu por detrás de cada arbusto, enfiou-se em cada aglomeração; nenhum sinal dos balões. Estes, apenas os que todas as crianças seguravam em mãos, menos ele.
Quando todas as crianças foram embora, ele avistou ao longe a máquina de inflar balões. Correu até ela, mas não encontrou que os pudesse encher. Inspecionou a máquina e descobriu como fazê-la funcionar. E encheu os balões; quase uns cem, era difícil contar. Amarrou cada um em uma pedra e os esparramou pelo gramado.
Na certeza de que não teria com quem brincar, estourou um a um, porque, de raiva, aqueles balões jamais ganhariam o céu.



Imagem: Menina cm Balões de Mark Green.

23.6.10

Do maior tamanho do mundo


Havia comprado uma caixa pequena, trinta por trinta, de cor vermelha. Não coube. Voltou à loja e levou a de cinquenta por cinquenta. Dois dias depois, Julian Gasmar reapareceu na loja a procura de outra caixa maior: a de noventa por noventa. Quando comprou a de cento e vinte por cento e vinte, teve dificuldade de ajeitá-la na bicicleta. A maior de todas levou nas mãos, equilibrando-a sobre a cabeça. Mas também não coube. Qualquer caixa era pequena demais para caber sua felicidade em si.



Imagem de Christian Baron.

13.6.10

Companhia


Ele, brasileiro; ela, argentina. Embora a língua não fosse um problema para que se entendessem, nada precisaram dizer. O silêncio falou por eles.



Imagem: The Lost Compass, de Jim Tardio.

21.5.10

Assalto



– O que tá fazendo?
– ... limpando a unha.
– Com a faca? Tá é louco? Guarda isso, pô; tá chamando atenção.
– Não tem uma alma na rua com esse frio.
– Mas também não precisa ficar exibindo a arma.
– Falando em frio, me passa o conhaque.
– Quanto tempo ele vai levar para acordar?
– Não sei, mas no carro sei que este aí nunca mais vai dormir.

Imagem de autoria desconhecida.

16.5.10

Carta de Nuno Thales da Hora a Julian Gasmar (2)


Sei que esta será mais uma correspondência sua sem resposta; aliás, elas já se somam dezessete. E serei breve. Não há como se apartar deste mundo, de um modo ou de outro estamos nele. Mesmo depois da morte, há sempre alguém a nos prender aqui. Não é culpa sua, não há como se proteger... de repente todos ficaram maus, como se o fogo interior houvesse apagado.
Todos seguem ao precipício tal as manadas e vão-se empurrando uns aos outros, derrubando ladeira abaixo os que estão a frente, até que o último bastião caia. Talvez a única saída seja caminhar ao oposto dessa manada. Do contrário, ambos cairemos.
Já se foi o tempo da inocência, já se foram os dias da condescendência, já se foram as horas da complacência. Tudo ficou tão cinza e frio. O pior que este fim se insinuava a nós, mas pouco pudemos fazer.
Julian, esta é uma caminhada solitária, tu tecerás tua rota e eu a minha, mas creia: chegaremos ao mesmo porto; o único lugar que nos sobrou. Seja qual for nossos rumos, o final deles será o mesmo. Mas durante o andar, só há uma coisa que sugiro fazer: cega-te, para que, vidente, deixe de ver o que não quer enxergar.


Imagem de Snap (Mixed Media)


4.5.10

Fragmento


Os dois se despiram e despiram também o falso pudor da cara, totalmente nus correu-lhes um arrepio de êxtase que estremeceu-lhes a espinha, um tremor de excitação que faíscou as costas e ramificou-se pelo resto do corpo, um arrepio frio do desejo incontrolável que aflorava sobre si, que crescia feito bomba explodida, cujo calor torra a carne, que aumentava feito o ar gelado que paralisa a razão, feito hipnose que lima a razão imediata dos pensamentos e imerge as almas na embriaguez emocional e descontrolada das sensações mais intrínsecas que teimamos aprisionar dentro dum eu puritano e repressor do eu pervertido.


Imagem de autoria desconhecida.

26.4.10

A rosa e o perfume


Julian Gasmar fitava o vaso; já não havia mais a escora e a rosa, mas a terra estava molhada; pois lhe deitara água o botânico. Ele sabia que tinha de preparar o vaso para a nova flor, mas lhe doía a certeza de não ter conseguido salvar a rosa. Dor que lhe varava o corpo e alma e o purgava em frustração. Tantos dias cuidando daquela flor, tantos dias regando, tantos dias adubando, tantos dias resguardando-a do sol e ainda assim ela morreu.
Dela, restou apenas o vaso com terra. Não guardou sequer uma pétala ressequida. Porém, percebia seu perfume nas horas mais neutras do dia; de soslaio, sentia a presença da rosa à janela; de descuido, enchia o copo de água. Em seus olhos, via-se o luto.
“Deves esquecê-la, Julian”, disse o botânico.
“Difícil não é esquecer; difícil é sempre lembrar”, respondeu Julian Gasmar.



Imagem de Peter Andrews.