9.1.12

A criação de Curitiba


No princípio havia o nada e Deus disse: “faça-se Curitiba” e Curitiba foi feita. Então Deus separou a terra das águas. Às terras, Deus jogou cimento e depois esburacou e chamou de “rua (sem calçada)”, as águas Deus colocou no céu e chamou de “chuva” e houve uma tarde e uma manhã.
No segundo dia, Deus criou as árvores, matos e lagos e chamou-os de Parque Barigui, Jardim Botânico, Parcão do MON. E viu que era bom. Depois Deus criou a praça Santos Andrade, Tiradentes, Rui Barbosa e todas outras e também viu que era bom. Então Deus disse: “que se encham as praças de pombas e os parques de ratazanas e quero-queros e houve uma tarde e uma manhã”.
Ao terceiro dia Deus fez um luzeiro e o colocou no céu e disse: “ardei feito o fogo e esturricai Curitiba nos dias sem chuva” e viu que era bom. Então Deus criou o verão, outono, inverno e primavera e a neblina e disse: “alternai-vos e sucedei um ao outro em quinze minutos – todos os dias”, e viu que era bom. Houve uma tarde e uma manhã.
No quarto dia Deus criou os manos, os playba, os coxas, os velhos da rua XV, os pedintes de ônibus e todos os tipos de curitibanos. Aos ajuntamentos de curitibanos Deus chamou Boqueirão, CIC e Inter 2. Então Deus criou a passagem a R$ 1,00 e disse: “ide e infestei os parques e as praças todos os domingos”. Houve uma tarde e uma manhã.
No quinto dia Deus criou o natal, o ano-novo, o carnaval e a BR 277 e disse: “faça-se Caiobá e Guaratuba e as praias lotadas, a rodovia engarrafada, o bicho de pé e o pedágio” e assim foi feito. Houve uma tarde e uma manhã.
No sexto dia, Deus criou o mau-humor e o colocou dentro do elevador, do tubo de ônibus e repartições públicas e disse: “curitibanos, falareis leiTE quenTE e não direis ‘bom dia’ ao vizinho ou porteiro; reclamarais do tempo, do trânsito e da cidade, mas só vós o fareis”. E viu que era bom. Foi uma tarde e uma manhã.
No sétimo dia, Deus contemplou sua obra, se retirou e nunca mais voltou.

Imagem: Centro de Curitiba (autoria desconhecida)

15.11.11

Passado



Ao procurar sua história no livro das memórias, abriu-o exatamente na página 404.

31.8.11

A rosa e o pôr do sol


Já se fazia fim de tarde e os casais chegavam à orla procurando o melhor lugar para ver o pôr do sol. Dizem que ali é vista mais bela para vê-lo se pôr. As pessoas chegavam e se acomodavam, sempre aos pares... abraçados, aninhados, embolados, lado a lado, menos Julian Gasmar, que estava sozinho. Mas também havia os que estavam em três ou quatro ou cinco e foi por isso que Julian Gasmar entendeu porque a praia se chamava “dos amores”.
Aos poucos o horizonte ficou vermelho, primeiro dum alaranjado suave até atingir a cor de fogo e ficar brasil. Era nessas horas que os amantes se olhavam e suspiravam, como se o pôr do sol lhes requeimassem com a flecha ardil do cupido. E foi nesse momento que Julian Gasmar sentiu um toque no ombro. Virou-se, mas nada viu. Pouco depois, sentiu uma coceira no braço: uma corruíra e junto dela uma rosa vermelha. O pássaro cantou e voou, mudando toda a paisagem.


Imagem: Pôr do sol, de Van Gogh.

20.5.11

Coleções


Noite de tempestade e a moça vestia sua capa de chuva transparente para ir ao quintal. Aliás, no armário guardava sua coleção de capas de chuva. No mesmo armário estava a coleção de guarda-chuvas, e ela tomou um azul-marinho. Correu ao quarto e tomou um pequeno frasco, que estava vazio em meio a outros cheios, uns de areia – coleção das areias das praias em que esteve –, uns de terra – coleção das fazendas e floresta por onde passou –, outros de grama, dos piqueniques que já lanchou. Tudo colecionava, canetas, borrachas, marca-páginas, despertadores, clipes, bloquinhos de nota, CDs, botões, esmaltes, chaveiros, moedas e selos. E também tampinhas de garrafa. Dirigiu-se até o portão de entrada e retirou do bolso um pequeno frasco deixou-o à chuva.
“O que faz?”, perguntou alguém.
A moça se assustou, não viu a pessoa se aproximar. Quando a fitou, teve dificuldade em enxergar com nitidez, por conta da chuva. Viu apenas um rosto muito pálido, coberto por uma capa preta tão longa que a barra arrastava no chão. Mesmo assim, respondeu simpática:
“Pego um pouco de chuva, para minha coleção de chuvas”.
A pessoa riu e disse:
“Também estou aqui por causa de minha coleção”.
A menina ficou interessada, empolgada perguntou:
“E o que coleciona?”
“Vidas”.
E a pessoa na capa preta foi embora com uma para sua coleção.

Imagem de autoria desconhecida.

9.5.11

A rosa e a poeira




A brisa logo virou vento forte, ainda agradável a Julian Gasmar. Trazia aquele aconchego de que tanto gostava. Mas era na curva da estrada que o vento arrastava a poeira do passado e no meio dela, bailando desconcertante, a pétala de rosa ressequida.


Imagem de autoria desconhecida.

11.4.11

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Imagem de autoria desconhecida.

25.3.11

Da fábula das horas que valem por minutos

para ti, porque te amo.


Se encontraram pelo olhar, de destinos cruzados. E seguiu-se o beijo e mais outro – de repente as roupas no chão. Aí, aprenderam a se conhecer: um tinha viagens a fazer, outro aulas a ministrar; um pendia a metódico, o outro um pouco despreocupado demais; um dormia no quarto escuro, o outro com a luz anunciando dia.
Em meio às obrigações de cada um, os minutos se multiplicaram e o dia ganhou horas a mais, posto que mesmo com viagens e aulas, palestras e oficinas, projetos e estudos, eles iam trilhando um caminho nunca dantes extraordinário.
No rodopiar dos dias, seguiram e os minutos se somaram e foram horas. Horas todas paradas, de eterno-sempre, de felicidade clandestina, de suspiros surrupiados, de uma coisa simples de sentir e difícil de palavrear, mas que não há ninguém que explique e quem não entenda.
Já eram tantas as horas, de algarismos enfileirados, que precisam eles dividir em dias, em semanas e em meses e eles somavam seis – sem adicionar as horas do dia de hoje e de ontem. E quando passarem as de amanhã e depois e todas as horas a seguir, haverão de dividir os meses em anos. Mas serão ainda aquelas horas paradas, nas quais o mundo gira apenas para os outros.
E quem olhe de cima, pairado à linha dos acontecimentos, verá que essas tantas horas valeram por minutos.


Imagem de autoria desconhecida.