25.3.11

Da fábula das horas que valem por minutos

para ti, porque te amo.


Se encontraram pelo olhar, de destinos cruzados. E seguiu-se o beijo e mais outro – de repente as roupas no chão. Aí, aprenderam a se conhecer: um tinha viagens a fazer, outro aulas a ministrar; um pendia a metódico, o outro um pouco despreocupado demais; um dormia no quarto escuro, o outro com a luz anunciando dia.
Em meio às obrigações de cada um, os minutos se multiplicaram e o dia ganhou horas a mais, posto que mesmo com viagens e aulas, palestras e oficinas, projetos e estudos, eles iam trilhando um caminho nunca dantes extraordinário.
No rodopiar dos dias, seguiram e os minutos se somaram e foram horas. Horas todas paradas, de eterno-sempre, de felicidade clandestina, de suspiros surrupiados, de uma coisa simples de sentir e difícil de palavrear, mas que não há ninguém que explique e quem não entenda.
Já eram tantas as horas, de algarismos enfileirados, que precisam eles dividir em dias, em semanas e em meses e eles somavam seis – sem adicionar as horas do dia de hoje e de ontem. E quando passarem as de amanhã e depois e todas as horas a seguir, haverão de dividir os meses em anos. Mas serão ainda aquelas horas paradas, nas quais o mundo gira apenas para os outros.
E quem olhe de cima, pairado à linha dos acontecimentos, verá que essas tantas horas valeram por minutos.


Imagem de autoria desconhecida.

3.3.11

7º Prêmio Rubens Mazza e Chuchu de Ouro

Interrompo a programação do blog para anunciar os vencedores dos prêmios Rubens Mazza e Chuchu de Ouro, do 11º Putz




PRÊMIO RUBENS MAZZA

Melhor Filme Trash: Cara, cadê meu Bráulio?
Melhor Filme: Um dedo de prosa
Melhor Direção: Gabriela Muller (Cara, cadê meu Bráulio?)
Melhor Ator: Arturo Marenda (Um dedo de prosa)
Melhor Atriz: Camila Amaral (Cara, cadê meu Bráulio?)
Melhor Ator Coadjuvante: Lucas Fritzen (por todas as participações)
Melhor Atriz Coadjuvante: Delma Mascow (The Clipfather)
Melhor Ator Inútil: Jason Brito Pessoa (Cara, cadê meu Bráulio)
Melhor Cena: Cantada do Mário em Cara, cadê meu Bráulio
Melhor Trilha Sonora: Porra, Dolores
Melhor Roteiro: Um dedo de prosa
Melhor Fotografia: Porra, Dolores
Melhor Edição: Porra, Dolores
Melhor cena "Ai, mi fodi!”: Meninas na cozinha em Putz for Dummies

PRÊMIO ESPECIAL MULETA DE OURO "O melhor momento é agora!" (em homenagem a Levi Crissi): Vinhada nos anos 80 em Um dedo de prosa


PRÊMIO CHUCHU DE OURO

Pior Filme: Ela e Eu
Pior Direção: Giovanna Jambersi (The Clipfather)
Pior Ator: João Felipe Matos (Ela e eu)
Pior Atriz: Jéssica de Oliveira (Floresta Direta)
Pior Clichê: Ela e Eu
Pior Edição de Som: Ela e Eu
Pior Roteiro: Ela e Eu


1.2.11

Da fábula da vida


Sentiu o toque no rosto e de instinto tentou abrir os olhos para atender, mas a luz feriu a visão. Tentou mais uma vez vencer o clarão. Desistiu. Sentiu de novo o toque e também um arrepio de frio, como se o ar do lugar o envolvesse e nele se aconchegou. Mais uma vez o toque na face e os olhos ainda se protegiam da luz. O peito reclamou em dor: faltava-lhe ar. Mais uma vez o rosto foi tocado e ouviu um barulho, sem conseguir decifrar o que era. Alguém chamava.
“Psiu... psiu...”
Direcionou a cabeça ao som, mas parecia atordoado, talvez pela luz em excesso e o ar em falta.
“Acorda menino...”
Abriu a boca na tentativa de aspirar o máximo de ar possível e sentiu a maior dor que haverá de sentir na vida. Como se um soco lhe tivesse atingido o diafragma e a dor explodiu pelo corpo. O diafragma saltou num espasmo e o pulmão encheu de ar e então chorou, um choro seco, doído, intenso.
“Isso menino”.
E descobriu a vida e o carinho nos braços da mãe.


Imagem de autoria desconhecida.

8.1.11

A rosa e o muro


Era um muro de quase três metros de altura e uns dez de extensão, duma pintura descascada escondida por uma roseira que já atingia o primeiro metro crescido. Avistada de longe, mais parecia um pedaço de nada salpicado de pontinhos vermelhos. E, mesmo de longe, Julian Gasmar sabia que eram rosas e este era o motivo dele passar em frente aquela casa todos os dias.
Apenas isso, ver as rosas; sem roubar-lhe um simples botão. Vê-las lhe enchia o peito duma calma corriqueira e uma breve felicidade estendida pelas horas seguintes.
Num desses dias, notou algumas pétalas rolando pelo chão algumas casas antes. Quando fitou o muro realizou que a roseira havia sido podada, decepada quase à raiz. Pelo chão as pétalas se misturavam aos galhos e folhas. Já distante, um jardineiro ia-se, exibindo a tesoura às costas na altura da cintura.
Julian Gasmar não se abateu: deixou o local e retornou em meia hora, munido de tinta e pincel. Algumas horas depois, o muro havia recuperado todas suas as rosas – só que agora ninguém seria capaz de rouba-las.


Imagem de autoria desconhecida.

16.11.10

Desaparecida


Dobrou a curva da vida e o vento bailou o lenço de florzinha que trazia na mão para longe. Depois disso, nunca mais a viram.



Imagem "Calgary Shadow Woman", de ra mcguire.

26.10.10

A rosa e a canastrinha


Emília tinha uma canastra, na verdade uma pequena caixa de madeira com um fecho longe de ser uma fechadura a chaves. Aliás, ela nem se chamava Emília, tinha um nome há tanto tempo não chamado que foi esquecido. Ficou Emília, como são todas as Emílias que distraem os dias colhendo lembranças da vida.
Emília era criança demais para se dar conta de que a canastra era mágica. Guardou a tesourinha de uma perna só e, quando a pegou de volta, ela tinha as duas pernas; o relógio estragado soou o despertador horas depois de ter sido colocado na canastra; a bonequinha rasgada saiu dela costurada. Até a conchinha quebrada que Emília acabou de guardar irá se refazer.
Para onde ia, Emília carregava a canastrinha. Guardava e tirava dela as brincadeiras inventadas. Estava sentada na calçada em frente de casa, quando uma forte brisa lhe trouxe uma figurinha, daquelas que vem com as balas de cereja. Era um desenho que Emília não entendeu direito e havia algo escrito, mas a menina não sabia ler.
Uma brisa mais leve desviou seu olhar para um pontinho vermelho que rolava pelo chão. Emília levantou-se e vou atrás dele, tentou pegá-lo algumas vezes, mas a brisa sempre o empurrava para mais longe. Quando conseguiu, não soube distinguir ser uma pétala, apenas percebeu sua maciez e guardou-a na canastrinha. De repente viu outro ponto vermelho pairando no ar. Pulou uma, duas vezes e na terceira conseguiu pegá-lo: era outra pétala. E assim foi pegando todas as pétalas que vieram com o vento.
Voltou a sentar no chão e abriu a canastra para contemplar todas aquelas pétalas, que faziam uma espécie de tapete vermelho na caixa, que envolviam os outros tesouros que ali guardava. Distraída, não viu um rapaz passar por si; também não viu desprender das mãos dele uma pétala vermelha. Quando a notou, correu pegá-la e fitou, mais à frente, a rosa jogada; nela a última pétala. Mirou o rapaz, que já ia longe.
Emília sentou-se ao chão, tomou a rosa e cuidadosamente guardou-a na canastrinha. E então correu, com toda a velocidade que suas pernas conseguiram alcançar, correu com a única certeza de que alcançaria o rapaz. Quando chegou nele, tocou em sua mão, chamando-lhe a atenção. Abriu a canastra e tirou a rosa, inteira, robusta, bonita e cálida e disse, entregando-lhe a flor:
“É tua rosa, Julian... e dela precisas cuidar”.


Imagem de autoria desconhecida.

26.9.10

Ele


Ele tem os olhos verdes e não é muito alto. Tem a pele clara, raro o sol escurecer. O cabelo é arrumadamente bagunçado, penteado pra lá e pra cá, contido com gel. As mãos trazem o toque certo quando entrelaçam meus dedos. E o toque... ah, que nele me perco. O rosto é bonito, colorido pela barba delineada, de fios negros e ruivos, que aprumam o queixo. A voz é firme e calma, quase sempre metrificada – soa poesia. O olhar é curioso, mas um tiquinho retraído, está sempre observando com a segurança de quem anda por terras conhecidas. A companhia é sempre paz prolongada no tempo, que se faz parado para nós, e sempre fogo, daquele que ardem sem se ver. Ele veste-se simples, anda normal, trabalha e estuda e viaja e se diverte e defende suas convicções e até já queimou um miojo. Mas um único detalhe, uma simples e mínima característica o faz único e especial, complexo e diferente:


a sua boca se encaixa perfeitamente na minha.



Imagem de autoria desconhecida.