15.2.09

10:10


Olha o relógio. 10:10. Flashes de luz rodopiam, embriagam. Cogumelos. Tontura... turva o real, se multiplica, enchem a cabeça, dilaceram-no os pensamentos e o sentimento. Eufórico, sua frio, treme as mãos, respira ofegante. Falta a luz, sufoca-lhe o ar, voam as idéias. Se decompõem, perecem no ar assim que lhe roubam a vida. Iminente fracasso. “Por que o abandonastes?” As luzes o confundem, inebriam o real e o imaginário, passado e presente numa só imagem. Olha o relógio. 10:10.


Imagem de autoria desconhecida.

10.2.09

Aqueles velhinhos

para os avozinhos...

Aquele jeito de gente do interior, de patriarcas de família grande, de velhinhos que a gente quer como avós da gente. Aquelas noites todas em torno da mesa jogando baralho. E o avô grita truco, e a avó ri contida e no ambiente aquele clima feliz. Dia após dias, aqueles quitutes e doces que a senhorinha prepara com esmero. E a avó diz podem comer tudo e o avô passa o dedo nas travessas de doces já vazias. Aquela casa, grande, esperando os filhos e netos e a avó se alegra ao vê-los juntos e o avô toca sua gaita em música de festa. Aqueles dois velhinhos ele adotou como os seus avós.


Imagem de autoria desconhecida.

30.1.09

Feliz aniversário


Em redor do bolo, já não gritavam como crianças ensandecidas, nem aguardavam afoito a cantiga findar. Também não se agitavam todos querendo assoprar as velas. Mas guardavam nos olhos a docilidade pueril, a alegria de mais uma festa. Ela, aniversariante, como habitual, recolhia um ligeiro embaraço de ser o centro das atenções naquela noite. Porém era a sua noite, como também foi seu o dia todo. Dia em que os abraços trocados traziam a acolhida cálida, em os beijos molhados em seu rosto tinham o sabor da infância cúmplice, em que a pose para a foto lembrava irmãos de chapéu de festa e língua de sogra. E assim o dia todo teve cheiro e a aura de feliz aniversário.

Imagem de pecadodagula.com

26.1.09

O terceiro ato


Ao entrar no palco para o terceiro ato, sentiu que ali seria o seu momento máximo da carreira. Envolto pelo cenário cru, uma e outra mobília esparsa, deixou-se invadir pelo personagem de maneira impossível de distingui-lo do ator. Que ele também percebeu. E havia a luz azul em penumbra, provocada pela iluminação: o clima certo para o monólogo. Deixou-se levar pelo ambiente, caminhou pelo palco insinuando sua interpretação. Fez movimentos pausados, gesticulou em dúvida, mas não lhe vinha a fala.
A platéia, quieta. Também se deixando absorver pelo ator em personagem. Porém em alguns abatia um incômodo, um sentimento de dor, de impaciência.
Do palco, encarou a platéia, fitando cada rosto compenetrado em suas ações. E começou a chorar, não porque tinha a impressão de que esquecera o texto, mas porque lhe era doloroso viver aquele personagem, era dum sofrimento pesaroso ser aquele personagem. Chorava compulsivo, chorava nervoso.
Era doloroso para o público permanecer, os primeiros já levantavam, claramente exaltados e perturbados, e saiam tentando, às vezes em vão, conter as lágrimas. Os que ficaram desviavam o olhar, tentavam procurar nalgum canto do teatro um escape à tangente, mas aquela penumbra azulada os envolvia e os petrificava. Não mais puderam resistir, pouco a pouco, retiraram-se. Ele permaneceu no palco e sequer notou que a platéia esvaziara. O terceiro ato era apenas ele, ator-personagem de sua tragicomédia.


Imagem de autoria desconhecida.

16.1.09

O começo


Arrumou as malas e partiu. Feliz, porque agora sabia o destino. Feliz, porque vislumbrou um caminho. Feliz, porque enclausurou o ontem no mausoléu do passado. Feliz, porque a sua frente se abria um mundo mágico. Feliz, porque esse mundo mágico lhe trazia aconchego e conforto. Feliz porque suas dores já não doíam mais e toda a mágoa tornou-se uma cicatriz imperceptível. Feliz, porque a cada passo se reencontrava e ousava saber de novo quem era. Feliz, porque era criança e tinha o mundo mágico para desvendar e gostosuras para descobrir. Feliz porque agora tudo era novo e um começo. Feliz, porque sabia, de certeza, que estava mais uma vez sempre começando.



Imagem de autoria desconhecida.

12.1.09

Histórias


Se para ela, ele era uma página virada; para ele, ela tornou-se um livro fechado.


Imagem: Photoschau.

12.12.08

Meu amigo


Se você o vir, por favor, me avise. Não é um pedido, mas um clamor. De quem perdeu. Ele não é perfeito, nem completamente bom tampouco extremamente mau. Também não é um gênio, nem um artista ou uma celebridade. Eu só preciso dele, preciso duma forma sobremaneira porque ele me coloca nos eixos, faz me encontrar quando estou perdido. E desde que ele se foi tudo ficou tão escuro, tão difícil, tão pesado. Mas eu preciso dele, não há outro, não posso substituí-lo. Talvez você, sim... você, talvez o veja nalgum lugar, melhor se o encontrar. E se o vir, diga que preciso dele, diga que ele volte. Ele... ele é meu amigo...

Imagem de twenty-five.net