19.4.10

Coração


Quando seu coração despedaçou, levou tempo para reconstruí-lo. Mas foi ela quem, calidamente, colou o último pedaço.

Imagem de autoria desconhecida.

10.4.10

Altar-mor


Dentro de si havia uma galeria, com espaço de destaque para as pessoas de que gostava. Distribuiu todos como santinhos em altares e era a eles que se curvava em devoção. Pois sabia que guardava um tiquinho de cada pessoa e se edificara pelo que elas o fizeram ser. Mas havia um cantinho, não mais nem menos importante, onde estava o altar-mor, destinado ao seu amor; e, embora tivesse a imagem nas mãos, alguma coisa o atrapalhava de colocá-la li.



Imagem de Archerphoto.


5.4.10

De aura dourada


A graça é essa, menino, as pessoas não nascem aparadas, assim terminadas. Todos os dias temos algo para alinhavar, um ponto a refazer, você tem que saber isso. É isso que faz a boniteza das pessoas, é essa a graça de viver, né’não? E não existe receita, não há como a gente saber que é hora de parar pra remendar uma ponta solta, para destruir e reconstruir; é o tempo todo esse cá e lá... Dizem que as pessoas da nossa vida ajudam a terminar a gente, a nos deixar assim bem feitinho... Talvez um pouco sim. Mas quem arruma a gente, quem nós faz bonito, de aura dourada, luminoso, grandioso, é aquela pessoa que sabe que terá que tentar várias vezes e mesmo não conseguindo vai persistir em nos deixar assim, vai nos lapidar como se fossemos sua jóia mais precisa. Quando você, menino, achar alguém por quem vai querer fazer isso tua vida toda, sem pestanejar, esteja certo que encontrou seu amor.


Imagem de Photodude (detalhe).

28.3.10

Ela


A cadeira em frente, vazia. No copo, a marca recente do batom. O saldo da noite: vinte e dois reais mais o serviço do garçom.



Imagem de Gonçalo Motta.


21.3.10


Embora houvesse a luz dos postes, a rua possuía uma aura escura e densa que a tornava pesada. Percorrer seus poucos quilômetro foi como entrar num mundo que se revela ao breu. A cada passo, sentia-se puxado para aquele mundo, sentia sua poeira lhe povoar a pele e sufocar a respiração.
Olhava ao redor e não conseguia enxergar um semelhante, eram todos desgraçados, cada qual em sua própria desgraça, uma desventura estéril, demente. Pareciam todos espíritos malogrados a uma pseudoexistência.
Às vezes cruzava com alguém, num passo apertado. Insinuava quase ilusório uma mesma rua servir de trajeto e de casa, porém eram tantos os papelões espalhados sob as marquises e os cobertores rotos contra a frieza do albergue. Os que não dormiam, cambaleavam bêbados, até que as pernas não mais sustentassem o fraco esqueleto e então eles se arrastavam.
Mas foi no olhar que os viu desgraçados; irmãos seus fadados a uma peça da vida. Olhar mareado, distante, forçando um foco que em vão tentavam buscar. Sentiu-se claustrofóbico, não podia despertá-los do sono ébrio que dormiam. Mais à frente, um orelhão se iluminou duma luz bem amarela que rompeu o côncavo da cabine e varou a rua como uma certeza.
Não atreveu olhar, buscou o canto do olho e desvendou pelo cheiro: um trago e o devaneio abriu as portas pela qual o cara entrou. Ali, às escondidas, às encolhas, era uma porta minúscula, mas a cada dia mais gente por ela entrava. Mas ninguém viu, estavam todos ensimesmados em suas venturas que aquela decrépita rua há muito perdera sua beleza: dos casais apaixonados, restou os cafajestes; do cavalheiro, o dentinho de ouro; da moça apaixonada, a prostituta. Do amor, a desgraça comum.
E naquela rua, cada qual com sua sina: sua desgraça era uma rosa, já murcha e de caule ressequido, cujas pétalas desprendiam e rolavam além, carregadas pelo vento.


Imagem de autoria desconhecida.

11.3.10

Louco




Você me ama?
Amo.
Mesmo?
Mesmo.
Mesmo... mesmo?
Aham...
Aham ou mesmo?
Sim.
Sim o quê: aham ou mesmo?
Sim eu te amo.
De verdade?
...
Fala, de verdade?
Eu te amo, meu bem.
De verdade?
Sim, de verdade.
Ama como?
... amando...
Você vai ficar comigo pra sempre?
Eu estou com você.
Mas você vai ficar pra sempre?
Sente aqui, meu bem: meu coração acelerado, minhas mãos geladas; é assim sempre que estamos juntos. Nem são eu seria louco de ficar sem você.


Imagem de autoria desconhecida.

6.3.10

Prêmios Rubens Mazza e Chuchu de Ouro


Interrompo a programação do blog para anunciar os vencedores dos prêmios Rubens Mazza e Chuchu de Ouro, do 10º Putz:


PRÊMIO RUBENS MAZZA

Melhor Filme Trash: O macaco assassino da floresta
Melhor Filme: Droga de amigo
Melhor Direção: Droga de amigo
Melhor Ator: Guilherme Sobota, em Droga de amigo
Melhor Atriz: (sem premiadas)
Melhor Ator Coadjuvante: Stamato, em Droga de amigo
Melhor Atriz Coadjuvante: Helen Anacleto, em O macaco assassino da floresta
Melhor Ator Inútil: Menina tocando violão em Whiskey in the Jar
Melhor Cena: Helen Anacleto morrendo em O macaco assassino da floresta
Melhor Trilha Sonora: Até mais, e obrigado pelo vinho!
Melhor Roteiro: Droga de amigo
Melhor Fotografia: (sem premiados)
Melhor Edição: Déjà Vu
Melhor cena "Ai, mi fodi!": Bernardo e Barney, em Droga de amigo
Prêmio Originalidade: Cara rolando escadas em O macaco assassino da floresta



PRÊMIO ESPECIAL MULETA DE OURO "O melhor momento é agora!" (em homenagem a Levi Crissi)

Baiano - filme cult é o escambau, em Droga de amigo


PRÊMIO CHUCHU DE OURO

Pior Filme
: Murphy versus Ronaldo
Pior Direção: A loira do banheiro
Pior Ator: Protagonista de Murphy versus Ronaldo
Pior Atriz: Kelly Prudêncio, em O macaco assassino da floresta
Pior Clichê: Personagens calçando chinelo e se olhando no espelho.
Pior Edição de Som: A loira do banheiro
Pior Roteiro: Murphy versus Ronaldo.


Um comentário: que puta desorganização. Sério, calouros 2010, façam melhor ano que vem, por favor, se for pra ser nesse amadorismo merda então nem façam.