2.11.08

O enterro de Isolina


O som da chuva acordou-me. O velho telefone soava estridente. Atordoado de sono tentava localizá-lo para atendê-lo. O dia escurecera-se devido à tormenta que precipitava naquela manhã. O telefone continuava a tocar e minhas mãos sonolentas tateavam o que havia sobre o criado-mudo. Senti-o vibrar. Quando o desliguei, senti uma coceira nos meus dedos. Forcei meus olhos embasados de sono: uma borboleta preta. Bateu assas e voou. “Isolina morreu”, disse-me a voz ao telefone.
Levei tempo a compreender, talvez porque meu cérebro acordava aos poucos ou pelo impacto da notícia. Minutos depois, acometeu-me o choque. Isolina estava morta. A boa Isolina estava morta. A querida Isolina estava morta. A velha Isolina estava morta. A preta Isolina estava morta. A gorda Isolina estava morta. Minha querida e boa preta velha Isolina estava morta. Chorei. Chorei como uma criança que perde a mãe, como um velho que enviúva, como quem perde a avó velhinha que assa deliciosos bolos de baunilha.
Quando nasci Isolina já trabalhava na nossa casa. Cozinhava, limpava, cuidava engomava nossas roupas, contava-nos histórias à luz do lampião. Alimentava as galinhas, dava de comer aos porcos e às vezes eu a ajudava a retirar água do poço. Isolina ensinou-me a rezar: uma ave-maria para cada conta de seu rosário branco.
Tinha de ir ao enterro. Vesti meu terno azul-marinho fui à garagem. Abri a porta do carro e outra borboleta negra bateu assas. Num vôo cambaleante, saiu de dentro do veículo, pousou na lapela do meu paletó e no instante seguinte fugiu.
Difícil dirigir. Estrada de terra, o barro no pára-brisa. Estacionei em frente à capela onde ela estava sendo velada. Ao descer, atolei meu pé até o joelho no barro. O guarda-chuva não continha a água que caía. Entrei na capela, Isolina não estava. Só vi as quatro velas apagadas, os pedestais onde seu caixão foi colocado e uma borboleta preta na vastidão branca da parede.
Corri feito um louco para o cemitério. Esqueci a chuva, esqueci o barro, esqueci as pedras da estrada de terra. Zanzei pelas ruelas à procura do túmulo de Isolina. Esqueci as flores. Nem uma margarida murcha em minhas mãos. Puxei do vaso de um túmulo recém fechado um maço de dálias e uma rosa branca. Ao longe, o coveiro e o carrinho com o caixão de Isolina. Corri, tropeçando em minhas pernas. Nada protegia o caixão de Isolina, mas não sei como, não chovia sobre ele. Pelo contrário, sobre seu caixão projetava-se um feixe dourado de luz, um raio de sol rompendo as nuvens pesadas.
Queria ver seu rosto rechonchudo, sua pele negra, seu semblante plácido. Queria ver a boa e velha Isolina pela última vez. Desatarraxei os parafusos de seu caixão, empurrei a tampa com certa força, derrubando-a. Tão logo ela se espatifou no chão, borboletas pretas, médias, grandes, minúsculas, milhares delas, ganharam o céu. Voaram num sublime bater de asas em direção ao sol. No caixão ficou apenas o terço branco de Isolina.

Imagem de autoria desconhecida.

18.10.08

Cause all the stars are fading away


After the crash, I slept for a week or even more – maybe a month I guess. When I woke up, I was tired and lightheaded. My car was almost completely destroyed, and I couldn’t see any bit of life around me.
I walked a lonely road; my shadow was the only one that walked beside me. I walked for miles and miles and hours and hours. Sometimes, I wished some out there would find me. There was none.
At the end of the night, I arrived in a town, a small town. And in the streets the children screamed, the lovers cried, and the poets dreamed. I saw a baby was sleeping so scared to be alone. And I saw a girl who sang the blues. I knew, if she had wings she would fly away, and another day God would give her some. She’s got a smile that seemed to me a kind of hope.
I tried to talk to her, but she ran away. I tried to talk to the children, lovers and poets, but they ran away. Everyone ran away, except the little fish, and he told me I should ask myself why.
The little fish told me to make my way back home and learn to fly. He also told me that men dreams one day to fly. And I had just one chance, one way ticket to the times I had before. I should learn to fly to pursuit my dreams
And I took a rocket ship into the skies, to live on a star dying in the night.


Image: Square, of Bob Kupbens.

5.10.08

O vodu


Tentava entender o que sentia, mas perdia-se na profusão de sentimentos dentro de si. Lhe tinha amor, mas sentia algo diferente disso, embora quisesse justificar que o que sentia era de fato amor. E com aquele boneco nas mãos, lembrando ele, com um fiapo de sua roupa e um cacho de seus cabelos, ela espetava agulhas vermelhas. Ela sabia, dalguma forma, a dor que ele sentia e as vezes que tropeçou a cada espetada. Mas a última espetada, a que deu no peito do vodu, doeu forte em seu coração.


Imagem de autoria desconhecida.

27.9.08

Céu azul


Alçou vôo e sentiu-se leve por demais, capaz de ganhar os sete céus, sentiu-se livre das pequenezas humanas e das mazelas que lhe assaltavam as madrugadas. Alçou vôo e impulsionou-se livre, feliz por ganhar um mundo tão desejado seu; e percorreu o céu bailando pelo espaço, rodopiando feito folha ao vento e deixando-se levar na vastidão do azul. Alçou vôo e sentiu sua alma desprender-se de seu corpo; era sua a liberdade e a vida em essência, era-lhe seu tudo o que buscara dantes. Alçou vôo e não escutou segundos antes a freada e a buzina, como também não sentiu o impacto. Enquanto as pessoas corriam para socorrê-lo em vão, ele alçava vôo a viver a vida.


Imagem retirada de Getty Images.

22.9.08

Florzinha no cabelo


Rodopiante, alegre... a passos cadenciados ela vem e passa no doce balanço do amar. Tímida, recolhida em si, mas capaz de despertar vida. Bela donzela dos olhos doces, meigos, que enfeitiça... Que me dera segui-la, me deixar levar por ela, guiado apenas pela florzinha rosa em seu cabelo.


Imagem de Vanessa Lima.

14.9.08

Tão pó, tão só


Tudo o que tinha guardava numa pequena lata de alumínio; coisas que eram sua vida, cada qual com seu significo, mas miudezas, pequenas lembranças e experiências, porém que lhe fizeram ser o que é.
E para onde ia, carregava a lata, que por causa das estampas, parecia uma casa, porta e janelas nas laterais, a tampa desenha de telhas de barro. Vez por outra abria a lata e remexia suas coisas, com olhar saudoso, e fechava. Certeza daquilo que era sólido e certo.
Numa dessas aventuras lata adentro, tão logo a destampou, começou a ventar, dum vento forte, vigoroso, que aumentava. Na dúvida se fechava ou dali corria, colocou a mão sobre seus pertences para impedir que o vento os tomasse consigo, mas o vento era forte demais e venceu a resistência; varreu dali não só as coisas mais leves como despedaçou tudo o que estava protegido.
Levou-os longe, espalhando-os pelos cantos e curvas ermas e ele sequer pode agarrar entre os dedos um mínimo pedaço de si. Sem sua latinha, sem nada, sem aquilo que lhe fazia ser o que era, tudo pareceu tão pó, tão só.


Imagem de autoria desconhecida.

2.9.08

A musa e o poeta


Às vezes falha-me a pena, acomete-me a estranha sensação de sentar ante a folha em branco e sentir as palavras impulsionarem sem levantar vôo. Como também falha-me a coragem, a capacidade de me entregar aos prazeres do mundo, de dizer as palavras singelas a ela; um medo pueril, uma dúvida acanhada e malévola, uma incapacidade de deixar minh’alma falar. Procurei as respostas certas às minhas perguntas errada, até que me dei conta de que a todo poeta inspira-lhe uma musa.
Saí pelo mundo à procura da minha, numa viagem tresloucada, feito um desvairado a caçar nos olhos de cada mulher a inspiração para minha arte. Tateei no escuro, embrenhei-me por becos e caminhos nunca dantes pisados, no entanto minha musa parecia mais bem escondida do que imaginava. Desenhava-a linda, capaz de preencher meu vazio, de acalentar minhas madrugadas insossas, de alumiar meu pequenino coração.
Ao vê-la perguntei-me: serão os poetas cegos? Minha musa estava ao meu lado, linda como a pintei: de cabelos negros, longos e luzidios, dum mesmo brilho cálido em seus olhos puxados, e pele morena do sol. Minha musa pegou minha alma e me levou pela noite de lua cheia, fulminou certeiro meu coração: fiquei estatelado, hipnotizado feito estátua de pedra. Minha musa me beijou, um beijo carinhoso... gostoso – fiquei querendo mais. Minha musa me inspirou, mas sou mau poeta: não verso, proseio.


Imagem retirada de DecksittersPhotoBlog.