14.6.08

Boneca de pano


O único brinquedo que não jogou fora, a menina guardou na prateleira mais alta. A mãe, que espreitava de longe não entendeu porque aquela caixa, somente aquela caixa, foi preservada. Mas a menina, ainda menininha, sabia: só poderia usar aquele brinquedo quando fosse mais crescida.
E os anos passaram, naquela velocidade de passar, e a menininha cresceu, virou menina, meninota, mocinha, moça e mulher; enfim adulta. Num dia sem-mais, ela apanhou a caixa do alto da prateleira e dela pegou o brinquedo: uma boneca de pano, um tanto amarelada pelo tempo.
A mulher olhou cuidadosamente a boneca e nos olhos as rememorações dos tempos de menininha voltaram em doce saudade e ela se deixou levar pelas lembranças daqueles anos passados em que era uma menininha e brincava de boneca. A mãe, que espreitava de longe podia ver a filha quase que hipnotizada abraçada à boneca e não entendeu porque agora, crescida, a filha parecia ainda mais criança. Mas a mulher sabia: para brincar com aquele brinquedo, teria de voltar a ser menininha.




Imagem de autoria desconhecida.

5.6.08

Desejo-te


Desejo teu corpo, templo do meu amor maior; desejo tuas fantasias loucas, tua presença certa e tua ausência súbita. Desejo te provocar em carícias, arrancar suspiros gemidos de inquietação, bolinar teu corpo como num passeio pelo descampado, como na brincadeira proibida. Desejo incitar arrepios – breves choques de paixão entorpecente. Desejo-te nua, desejo teus seios empinados, tesos para eu mordiscá-los e beijá-los... Desejo teu corpo quente, entregue a mim em ardente perdição – ai! que nele me perco e em ti me acho.
Desejo teu sexo, traduzido em amor nas horas que são somente nossas. Desejo-te em cima de mim, na perfeita combinação em que somos apenas um; desejo a noite perfeita, o tempo parado, o errado acertado. Desejo-te com minha boca, meus lábios, minha língua, meus dedos, minhas mãos, meu corpo e meu sexo; desejo pelo pouco de mim que há em tudo de ti. Desejo de alma, de coração, de amor, de ódio, de prosa e poesia; no ritmo perfeito que nos embala o amor.
Desejo de amor sincero, incondicional, instintivo, banal; desejo-te pelo ontem, no hoje e para o amanhã. Desejo-te de estado de espírito, por tudo que sou e não foi, por tudo que fui e não sou, pelo amor que me faz querer. Desejo-te.


Imagem de autoria desconhecida.

26.5.08

Suas palavras


Quando parou para tomar fôlego, aproximou-se um velho que se sentou ao seu lado; trazia em suas mãos uma caderneta de capa de couro, já velha, com as pontas meio puídas. Do bolso da camisa retirou um lápis algumas vezes apontado com a ponta bem feita. O velho abriu a caderneta anotou a data na primeira folha em branco seguinte às escritas e encarou-o. Fitou seu olhar vago, sua face triste e abatida, seu corpo tenso e lhe perguntou: que faz aqui?
Ele mergulhou o olhar no horizonte, deixou os olhos marejarem de lágrimas, e falou meio engasgando: esqueço... Deu um breve suspiro e o velho perguntou-lhe de novo: como veio até aqui? Ele suspirou, inspirou fundo numa tentativa de despistar o choro da garganta e disse: vim andando. Veio andando umas boas léguas e meia.
O velho então pediu: escreve aqui no caderno. Ele tomou a caderneta na mão, e por longas linhas escreveu o que sentia e como sentia e porque sentia e quanto sentia, escreveu tentando vencer a dor dos pés cansados e do corpo estafado. Escreveu em linhas tortas e letra garranchada, difícil firmar o pulso.
O velho leu cada frase, meditou cada palavra e disse-lhe: não continue... volte; apenas volte. E antes dele tomar o rumo da volta, o velho rasgou a folha escrita por ele e entregando-lhe completou: sãos suas palavras, deve levá-las consigo.


Imagem retirada de "The line between".

16.5.08

Recorte de jornal


As pessoas na rua a olhavam; com olhar curioso porque algo nela estava diferente, muito embora ela mesma não se sentisse diferente naquele dia. Ou melhor, ela sentia-se um tanto melancólica, nostálgica, até mesmo um pouco absorta, porém não deprimida; e aquele dia era tão-só um dia a mais de trabalho.
Mas foi quando se olhava no espelho do elevador, conferindo se a roupa estava impecável, que descobriu o motivo dos olhares: estava em preto-e-branco. Enquanto o mundo todo à sua volta insinuava seus matizes e suas infinitas tonalidades coloridas, sua pele, seu cabelo, seu lábio, seu olhar e suas roupas oscilavam nas diferentes graduações do cinza.
Ficou um tanto desconcertada, no entanto quê podia fazer? Tentou retocar o batom; sem efeito: seus lábios apenas ganharam um contorno mais definido em tom cinza escurecido. Foi ao banheiro, lavou o rosto, mas na pele a mesma palidez acinzentada.
Dirigiu-se à sua sala, porém sentia-se esvaziada a ponto de sequer conseguir dimensionar o que se passava. E quando tocou a cadeira, o estofado perdeu a cor e assim com cada objeto que tocou: todas aquelas cores vivas, luminosas, vibrantes viraram um punhado de cinzas médios, claros e escuros, indo da plenitude completa das cores até a ausência delas.
Em desespero, chamou pela colega ao lado. Esta mulher até virou-se em sua direção, mas perdeu o olhar ao longe, como se o seu chamado de ajuda fosse apenas um sussurro incompreensível do vento, como se ela fosse alguém congelado no tempo passado. Tão igual, tão igual à moça do recorte de jornal da fundação da empresa emoldurado na parede.



Imagem de autoria desconhecida.

11.5.08

Do bem


– e se a polícia acha que nós somos bandidos?
– eles não vão pensar...
– mas se eles pensam, pai?
– não somos bandidos.
– a gente é do bem?
– é... a gente é do bem.
– os bandidos é que são do mal, né?
– sim.
– mas se a polícia pensa que a gente é mal, a gente vira bandido?
– não, filho... não somos bandidos.
– mas e se a polícia pensa que somos?
– eles não pensam isso da gente.
– por que a gente é do bem, né pai?
– é... porque a gente é do bem.

Imagem de autoria desconhecida.

8.5.08

Vitalidade


Acordou descansada, sentindo-se mais jovem, numa vitalidade há anos esquecida; e animada para caminhada no parque ao sol ainda leve da manhã. Não tinha idéia de quantos anos fazia que acordava com o sol a pino do meio-dia, estafada mesmo tendo dormido por horas e horas.
Ficou em dúvida se corria ou caminhava, mas a vontade de algo mais pesado incentivou-a a correr; começou devagar, mas logo aumentou o ritmo como se preparasse para uma competição. Não sentia cansar: quanto mais corria, mais queria continuar e sentiu que não queria apenas correr, mas desejava também pular, dançar, soquear o ar, dar cambalhotas, rolar no gramado do parque.
Sobretudo, porém, corria feito criança serelepe, esquecendo-se do mundo e imergindo na sua pueril brincadeira da manhã de domingo. E pulava e corria e girava cambalhotas e subia em árvore e dançava feito criança que era; e de fato era criança.
Parou apenas para se refrescar com um picolé, já matutando as próximas brincadeiras que saciaria pelo parque. Foi quando viu uma senhora se aproximar e falar uns bá bá bá bu bu bu, que nada compreendeu; fitou aquela senhora tentando compreender se louca era ou estava lhe mangando. A velha, antes de ir-se, soltou um riso curto, divertindo-se em ver aquele bebê de pouco mais de um ano de idade lambuzar-se com o picolé.


Imagem: There is always hope, de FriskyPics.

4.5.08

Como você me dói


Não de vez em quando... quase sempre. Dói na tua presença e na tua ausência, dói no amor que por você sinto e no ódio que lhe tenho, dói no acertado e no errado. Dói duma dor doída, profunda, aguda e nauseante. Você me dói desse teu jeito falso, desse teu jeito despreocupado, desse teu jeito inocente, desse teu jeito pueril; desse jeito que me consome e me faz mal e me vicia. Você me dói... talvez saiba disso, me dói a ponto de eu me doer de mim, por você.


Imagem de: chromogenic.net